ESPELHO SEM AÇO
30 de abril de 2013
11 de janeiro de 2013
AS PALAVRAS DO OUTRO
Gosto tanto dos textos de Tatiana C. Mendes, que este Blog vai parecer que é dela!
Mas...estas palavras, eu precisava trazer para cá.
Detentora da consciência de que tenho me matado – emocionalmente falando – aos poucos, ainda insisto no fato de que pessoas são pessoas, independente do meio. Insisto em considerar alguém que nunca vi da mesma forma que considero alguém que está ao meu lado todos os dias. Respeito independente de quem seja e onde esteja. E por mais que eu faça tudo isto de maneira gratuita, ser levada pela correnteza – sem saber nadar em águas tão fluidas, pois estou mais acostumada com mergulhos – é afogamento certo.
Nadar? Não sei.
Resistir? O ar já me falta.
Já sei que tem gente que vai ler e dizer que “eu também considero”; “também percebo as pessoas, independente de estarmos numa rede social,...” – balela! Pensou isto? Então pondera. Porque tem gente que fala, mas não faz – não age, não cumpre e não banca e não sustenta. Às vezes até banca – prioriza, mas por egoísmo, necessidade, conveniência. Fora isto – falta de opção pura, tipo “não tem tu, vai tu mesmo”.
Pretensiosamente, digo [aconselho]: não banca? Não quer? Não é mais necessário? Deixou de ser conveniente sabe-se lá porque, isto é se algum dia foi uma coisa qualquer? Sai. Some – do mapa. Não quer falar nada? Jogar abertamente? Então não fale, mas não fale NADA. Não alimente. Se cale por completo. Siga na sua correnteza sem comprometer os mergulhos alheios.
... Porém, como não sou adepta às generalizações, creio que ainda existam aqueles que se afetam de fato, que pensam – ponderam – dizem e agem –, que são os que deveriam ter a sorte de encontrar “pares”, “ímpares” – “múltiplos” – num mesmo nível de profundidade, crença e interação; por mais que sejamos fortes, nadar contra a correnteza é minar toda e qualquer força. É se esvair lentamente. Morrer.
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Desabafo sem direção. Faz tempo que penso acerca do tema."
Tatiana C. Mendes
28 de dezembro de 2012
AS PALAVRAS DO OUTRO
" Este negócio de correr cansa.
Correr atrás,
Pior ainda.
Se for preciso correr,
Que seja na frente;
Melhor ainda se for ao lado.
Caso não seja possível
– a corrida –
Ande.
Mas ande de cabeça erguida,
Corpo ereto,
Com olhar fixo no horizonte.
Jamais olhe para trás
Ou para o chão;
Atrapalha o rendimento.
Sempre à frente!
Adiante!
E já! "
Tatiana C. Mendes.
27 de dezembro de 2012
24 de dezembro de 2012
AS PALAVRAS DOS OUTROS
Foto de Zazá Lee
“Então é Natal, mais uma vez”...
E o ano foi especial continua sendo; e no futuro não será diferente. Repleto de expectativas.
Coisas aconteceram: boas, ruins; muitas águas rolaram por baixo da ponte – caíram do céu também, teve enchente; sede saciada, e muito suor escorrendo.
Coisas aconteceram: boas, ruins; muitas águas rolaram por baixo da ponte – caíram do céu também, teve enchente; sede saciada, e muito suor escorrendo.
Tivemos tudo.
Quase tivemos o “fim de mundo”... E quem disse que não foi? Quem garante que fim na verdade não é início?
Vai que... Talvez estejamos no meio, mas depois de estarmos “metade”, será que nos completamos ou nos desfazemos?
Fato é que a doação de nós mesmos não pode, e nem deve, cessar...
Tivemos calor, sol que aquece – brilha –, mas também queima, não só por fora – tivemos até mesmo corações aquecidos que saltaram pra fora do peito, e estiveram, ainda que momentaneamente, fora do ponto.
Houve também o frio que gela pele, e aquele tipo de frio que corta alma.
Tivemos casa – comida (roupa lavada, nem todo mundo teve); houve e ouvimos e vimos ruas, bairros, cidades, países, mundo – Terra – tivemos natureza – mãe – e Presença: era a beleza das flores, a riqueza do céu azul, as cotovias que fazem serenatas a nosso pedido, a noite que chega e a lua que cai e as estrelas que bailam; tivemos escuridão – pano de fundo pra luz, toda protagonista que se preze precisa de uma escada.
Ainda que às vezes pensemos que não seja nada.
Ainda que às vezes esqueçamos que o nada não existe.
Tivemos um mundo a nossos pés. Um Universo a nossa disposição.
Tudo “‘ali’ – basta pegar”.
Óbvio que para alguns o “pegar” é mais facilitado, para outros, mais dificultoso – mas não menos – quiçá até mais – prazeroso.
E é o que desejo para as minhas amigas e amigos:
PEGUEM TUDO QUE ESTIVER AO SEU ALCANCE.
Caso haja alguma dificuldade, peguem a dificuldade também.
Percebam o prazer da tentativa. O prazer de cair, de levantar.
De olhar pra frente e perceber que somos aquilo que construímos ao redor de nós mesmos e sobre nossa essência, que é a base.
Batalhas travadas, derrotas, vitórias, mas acima de tudo, somos a maneira que encaramos/ enfrentamos a VIDA que VIVEMOS.
A escolha é – e sempre será – NOSSA.
“Portanto escolham, peguem, grudem, agarrem e façam.”
VIVAM.
Tatiana C. Mendes
18 de dezembro de 2012
EXPECTATIVA
"E eu ainda continuo me surpreendendo com as pessoas.
Pena que surpresas nem sempre são boas.
Nem poderiam ser.
O que não é de todo ruim.
Luz e escuridão coexistem.
O bem só é valorizado devido á falta que o mal proporciona.
Vivemos de simbioses.
A base de necessidades.
O que é um risco.
Quem necessita, busca; da mesma forma que quem tem fome, come.
Acreditar é necessidade; necessidade de SE alimentar.
O que não deixa de ser egoísmo.
Quem acredita, espera.
E às vezes, aquilo que é esperado, parte, mas não chega.
Daí a cautela com os excessos de querer – e de SE surpreender –; só se surpreende, quem antes acreditou.
Bom mesmo é viver sem calcular – do inesperado, e não à mercê de expectativas – catapulta para frustração.
Somos algozes de nós mesmos"
Tatiana C. Mendes
Pena que surpresas nem sempre são boas.
Nem poderiam ser.
O que não é de todo ruim.
Luz e escuridão coexistem.
O bem só é valorizado devido á falta que o mal proporciona.
Vivemos de simbioses.
A base de necessidades.
O que é um risco.
Quem necessita, busca; da mesma forma que quem tem fome, come.
Acreditar é necessidade; necessidade de SE alimentar.
O que não deixa de ser egoísmo.
Quem acredita, espera.
E às vezes, aquilo que é esperado, parte, mas não chega.
Daí a cautela com os excessos de querer – e de SE surpreender –; só se surpreende, quem antes acreditou.
Bom mesmo é viver sem calcular – do inesperado, e não à mercê de expectativas – catapulta para frustração.
Somos algozes de nós mesmos"
Tatiana C. Mendes
31 de outubro de 2012
MINHA VOLTA
A vida funcionou para mim, até agora, como se eu estivesse comandando um barco.
Viajei, vi muitas paisagens diferentes, aportei em muitas praias.
Mas a maré foi encaminhando meu barco de tal forma, que não consegui leva-lo para lugar algum.
Deixei que o barco fosse seguindo a maré.
Dormi ao som de tempestades e raios.
Fiquei assustada com peixes estranhos.
Um dia, decidi ancorar em uma praia deserta.
Muito linda e solitária.
A reflexão chegou, com o silêncio cortado pelos sons gritantes das gaivotas.
E tive a iluminação que precisava.
Voltei.
Para a praia que estava destinada a mim.
O Espelho Sem Aço, terá uma nova missão daqui para frente.
Cautelosamente, estou ancorando na minha verdadeira praia.
13 de outubro de 2012
A CASA DOS CHEIROS
Uma vez por ano, passávamos as férias na casa de minha avó
materna.
Mamãe, por ocasião da visita anual, costumava deixar um ou
dois filhos, cumprindo a profecia das composições escolares, para tornar a
buscá-los semanas depois.
A casa de minha avó tinha um caráter austero; simples,
elegante, limpa, e ao mesmo tempo, superior e arrogante: impressionava.
Comprida, pé direito alto, corredor que levava ao além da vida, uma passadeira
bem cuidada conduzindo ao ponto cardeal extremado da casa : banheiro, cozinha e
quintal.
Este mesmo corredor, próximo ao burburinho, ostentava a
única modernidade que a casa poderia suportar: duas geladeiras robustas,
barulhentas, de motor inquieto, com maçanetas lembrando porta de “ Ford” velho –
uma para as comilanças de todo o dia, e a outra, entupidinha de doces caseiros,
cidra, abóbora com coco, doce de mamão em espelhinho, umas delícias que nunca
se acabavam, ao contrário, miraculosamente se renovavam.
Doce de leite pastoso,
goiabada em gomos, compota caprichosamente colocada em cristais, geleia de
mocotó, ruim, ruim, ruim...
Cozinha pequena para tanta gente, sem mistérios, onde pouco
entrei, e pouco observei – exalava a nata de leite gorduroso que ficava sobre o
fogão a lenha, e a multidão de panelas e tachos, cores e tamanhos variados, barro,
cobre, latão, cada um com seu destino de ter sido separado para ser do doce de
figo, do frango, do sabão.
O quintal era fedidíssmo em bizarro contraste com a casa,
muito responsabilizado por uns poucos patos e galinhas que habitavam ali,
fazendo não sei o que, visto que nunca vi que morriam ou se sacrificavam por
refeição alguma.
Ficavam confinados a um pequeno galinheiro de arame, com potes
e potes de água verde, repletos de penas e grãos de milho desperdiçados.
Não
passavam de uma cerca baixa, mal pintada e rústica, porém, na minha memória,
soltíssimos, quase chegando ao quarto onde dormíamos.
Vovó era uma mulher de métodos.
Com ela não havia
improvisação – nada de colchões no chão, acampamentos feitos à última hora para
os que chegassem sem aviso.
Os quartos da frente eram sempre reservados aos netos que
vinham de longe; não havia indagações sobre onde dormiríamos.
Era sempre lá, no
cômodo pequeno da frente, com duas camas noviças, sem rococó ou traço ínfimo de
feminilidade – camas de dormir, encostadas em cada lado da parede, separadas
por um tapete de retalhos do artesanato próprio da casa – meu Deus, quem se
ocupava com aquilo ?
Os cheiros da minha infância são notadamente marcados pelo
odor da roupa de cama da casa de minha avó.
Hoje, adulta, com uma pequena
experiência em alquimias de cozinha e tanque, chego a pensar que vovó
caprichosamente temperava as essências de sua casa para que fossem eternamente
lembradas e únicas - a roupa de cama, branca, hotelesca, cheirava a sabão de
cinza, produzido lá mesmo no quintal, mas que não trazia o cheiro dos patos,
mas sim o da lida, o da esfrega, do esforço bruto de manter a ordem e
disciplina.
Cada cama escondia um urinol – de ágate branco, quebrados
nas pontas – que eu francamente nunca pude compreender.
Diariamente eram
retirados e recolocados como que por magia, guardiões do meu sono perturbado e
vigilante.
Por sobre cada cama, eis que vovó surpreendia.
Pendurados,
exatos em tamanho, mas em diferentes poses, havia imagens de anjos-criança, com
o fim exclusivo de abençoar o sono de quem estivesse abaixo.
Anjos crianças demais, com pouca maturidade e experiência, e
o que produziam, na verdade, era um inconfundível pavor ante tão pouca
segurança, à medida que as luzes da casa iam se apagando, e vovó, resoluta e
fria diante do meu pedido desesperado e pouco convincente por um pouco de luz,
ia exercitando em mim a negritude do futuro, e com gestos decididos, escurecia
minha visão e aumentava as sombras do meu pânico.
Casa de forte comprometimento católico, exalando básicos
odores de velas do cristianismo através de crucifixos e santos muito simples,
meu sono nunca chegava antes que meus olhos não resistissem mais às longas
piscadelas , e à espreita eterna de que os anjos-nenês iriam reclamar do
trabalho dobrado de guardar meu sono.
Meu corpo pequeno, magro e sempre frio, parecendo ter sido
vindo de alguma era glacial, não deitava, ficava.
À simples ideia de me virar
um pouco produzia em minha mente a culpa inexplicável e trágica por não
apreciar as sombras gigantescas que a parede produzia por um poste que mal
iluminava a calçada no lado fora.
Chego a pensar na crueldade com que minha avó atormentava
também as crianças-anjo, que não queriam abençoar ninguém, medo terrível de
ficar guardando um quarto, sorrisos forçados por sobre crianças eventuais e
forasteiras, a observar continuamente as sombras se formando, tendo que
suportar o ritual satânico do abandono das luzes e o surgimento das trevas,
estendido noite adentro, sem indícios de rebelião.
O relógio da sala de jantar marcava as horas histericamente
– bate até hoje bumbado no meu coração.
Por volta da meia noite, minha mente
trazia os patos lá de fora – lá vinham eles, desajeitados, rebolantes,
decididos, porém, atravessando toda a península da casa e invadindo os quartos
sem nenhuma explicação.
Porque nunca esquentava ?
– Ao contrário, as temperaturas
baixas se prontificavam a declinar cada vez que eu me revirava: - faltava um
cobertor, havia um cobertor, faltava o abraço de boa noite, não faltaram
abraços, faltava o amor, mas amor também estava ali, cumprido e realizado em
ações devocionais de culinária e limpeza absoluta através dos passos
diligentes.
A casa de minha avó foi magia para meus olhos de pequena.
Pela manhã, depois de uma noite torturante e densa, tão
certo como a vida, vovó abria a porta da frente à hora que o sol surgia, negra,
paramentada de terço e véu, as chinelas se arrastando, pesadas correntes que me
despertavam.
Daí as flores surgiam, os brincos de princesa da minha
meninice, a pimenteira vermelha brava plantada junto ao muro caiado, os dias
azuis, a liberdade sem freio...
As idas à bica da minha infância, verde água da cor do
bambuzal, viçoso e lúdico, a água da mina confinada em cano, jorro de alegria
para a alma de criança, espírito aprendiz da liberdade e poesia.
A existência do oleiro logo abaixo, a primeira consciência
da forma, da produção do vaso de barro e o meu espanto ante a arte primeira, a
simplicidade da arte, o fascínio das horas que não passavam, com todos os
bichos soltos na minha imaginação.
A poesia das borboletas alaranjadas, levezas em tontura,
simplérrimas, o revoar delas, desordenado na minha memória, a decorar as
árvores da minha infância, raízes saltadas para fora da terra, a alma de
criança aprendendo com a solidez e a competência da vida.
Um dia parei de ir. Vovó havia se mudado.
A casa passou a ser uma casa de esquina, meio que velha
demais para o quarteirão, até que bem mais feia do que antes.
Há bem pouco
tempo me contaram que virou restaurante – triste fim para o que fora misto de
sombras e delírio.
Alma de criança aprendendo a vida, a distinguir as cores, a
contrastar o belo e a escuridão, a acreditar que há escuridão entremeada à luz,
que há bicas, há oleiros, que ainda há vasos de barro e jorros de alegria
vindos da mina em meio a bambuzais de sonho...
As cores da minha infância, os matizes dos meus poucos anos,
os devaneios que se cumpriram, todos eles estão vivíssimos dentro do peito
desta mulher que ainda sonha, desta mulher madura.
A casa dos cheiros também."
Pé de Pitanga
http://pdepitanga.blogspot.com
Este texto, compartilho com alegria e saudade, pois fiz parte de tudo.
A autora, minha irmã, fez renascer em mim, as lembranças que nunca desejei esquecer.
1 de outubro de 2012
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